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Sejam Bem-vindos!!! Este é um espaço dedicado a arte e aos seus (futuros) admiradores. Ele é uma tentativa de despertar em seus visitantes o gosto pelo assunto. Aqui, poderão ser encontradas indicações de sites, livros e filmes de Artes Visuais, imagens de artistas, alem do meu processo de trabalho. É o meu cantinho da expressão. Espero que sua estadia seja bastante agradável e proveitosa.
Este Blog é feito para voces e por voces pois muitas das postagens aqui presentes foram reproduzidas da internet. Alguma das vezes posso fazer comentarios que de maneira parecem ofensivos porem nao é minha intençao, sendo assim, me desculpem. Se sua postagem foi parar aqui é porque ela interessa a mim e ao blog e tento focar os pontos mais interessantes. A participaçao dos autores e dos leitores é muito importante para mim nestes casos para nao desmerecer o texto nem acabar distorcendo o assunto

terça-feira, 26 de julho de 2011

HISTORIA EM QUADRINHOS: parte 3 - O quadrinho alem do Gibi

Arte de Angelo Agostini, pioneiro no Brasil

O texto continuação da serie quadrinhos vai tratar sobre o que se pode fazer com a revista em quadrinhos, pois elas são historias que podem ser exploradas nao se resumindo apenas a revistinhas. Ela se expande para outras area devido a sua grande versatilidade
 
Texto 1: Quadrinhos além dos gibis
José Alberto Lovetro (JAL)¹

A linguagem dos balões dos quadrinhos é tão
coloquial e econômica como a do twitter e seus
140 caracteres.

    Quem já desenhou alguma vez na vida? Essa pergunta, talvez, nem seja necessária. Mesmo que em rabiscos ou formas primárias, todos nós desenhamos em algum momento em nossas vidas. Mas rabisco não é desenho! Errado. Rabisco é instintivo e nos faz escolher cores e formas. Mesmo que ininteligíveis, estão representando algo que criamos em nossa cabeça e nossa mão, ainda não domada pela prática, esboça uma criação.

     Qualquer criança rabisca algo se dermos para ela um lápis e papel. Isso não é de graça. Nos primórdios da civilização humana, algum anônimo se atreveu a rabiscar nas paredes de sua caverna. Não era uma brincadeira, mas sim uma necessidade. Naquela época, os seres humanos morriam cedo. As dificuldades de sobrevivência eram muitas e a medicina não era das mais avançadas. Quem chegasse aos 35 anos já poderia ser considerado um dos mais velhos da tribo.
    O que fazer, então, para ensinar aos filhos pequenos as lições da sobrevivência em um ambiente selvagem? A solução poderia ser desenhar a sequência de uma caça ao antílope, ou como obter fogo, ou até como gerar filhos. E aquele homem das cavernas pegou uma pedra e começou a rabiscar algo nas paredes de sua moradia. Depois, utilizou tintas tiradas de plantas e assim por diante.
     Antes disso, a linguagem era a do gestual ou os sons de uma língua própria que apenas era entendida pelos membros do grupo. O conhecimento, então, era transmitido de um para o outro e poderia se perder no processo dessa comunicação. E se os pais da criança morressem quando ela ainda estivesse com cinco anos de idade? Haveria alguém para adotá-la e dar continuidade aos ensinamentos? Nem sempre. Eram mais bocas para alimentar e, muitas vezes, as crianças acabavam abandonadas. Se não fosse esse alguém anônimo criando a linguagem sequencial, talvez não houvesse o acúmulo de informação na história da humanidade para sua evolução.
     Essa linguagem criada no início de nossa civilização é hoje chamada de quadrinhos ou arte sequencial. E, por incrível que pareça, é a linguagem também do século 21. A linguagem  dos balões dos quadrinhos é tão coloquial e econômica como a do twitter e seus 140 caracteres. Isso sem contar a força visual que vem, a cada ano, sendo preponderante e necessária na comunicação moderna.
    Se veio dos primórdios e continua moderna até hoje, a linguagem dos quadrinhos não pode ser considerada arte menor, como há muito tempo vinha sendo taxada. Sua história nos conta o quanto ela está inserida no estímulo à leitura e ao desenvolvimento de outras linguagens que vieram depois.
     Temos exemplos de arte sequencial nos hieróglifos egípcios, nos panôs e desenhos nas igrejas da Via Sacra de Jesus, difundidos na Idade Média, e até nos túmulos de reis, onde havia sequências de sua dinastia em alto relevo. A Tapeçaria de Bayeux é uma obra feita em bordado (século XII), para comemorar os eventos da batalha de Hastings (14 de Outubro de 1066) e o sucesso da Conquista Normanda da Inglaterra, levada a cabo por Guilherme II, Duque da Normandia. Mede cerca de setenta metros de comprimento por meio metro de altura, com os textos incorporados aos desenhos, de tal forma que se torna uma verdadeira tira de quadrinhos gigante. Em alguns panôs impressos em xilogravura no século XVIII, na cidade de Épinal (França), temos até a invenção do balão saindo da boca de personagens com as falas coloquiais da época. Linguagem escolhidapor Jean-Charles Pellerin para popularizar histórias da Revolução Francesa, novelas e histórias de santos.  Até o século XVII poucas pessoas eram alfabetizadas. Por isso, a imagem foi tão importante. Até um analfabeto consegue absorvê-la. Surdos-mudos entendem. Crianças entendem. Homens das cavernas entendiam.
     Mas foi após a invenção da prensa por Gutemberg (século XV) que a difusão da imagem impressa começou a invadir o mundo. O texto escrito pôde ser finalmente difundido para as massas. Na área do desenho, começou com a impressão das charges criticando a monarquia e sua pomposidade diante da pobreza de seus súditos. Os desenhos eram impressos e distribuídos pelas praças como uma forma de resistência aos desmandos do poder. 
     Foi apenas no século 19 que os desenhistas começaram a contar histórias através da linguagem dos quadrinhos. Em 1827, o suíço Rudolph Topffer publicava M.Vieux-Bois, considerado por Goethe, pensador e escritor alemão, um romance caricaturado. Interessante que esse precursor das histórias em quadrinhos impressas em estampas era um professor. Demonstra o quanto essa profissão tem, em suas características, não apenas formar informando mas criar novas linguagens de comunicação para sua comunicação.
    Em 1865, uma dupla de moleques cheios de travessuras “ Max und Moritz” era criada pelo alemão Wilhelm Busch, que não economizava na violência ao transformar os meninos em bolos indo aos fornos. Nada aprovado pelos pedagogos da época. Mais tarde, seriam a inspiração para a série “Sobrinhos do Capitão”, de Dirks, em 1897.

   O Brasil se tornou um dos pioneiros na criação da linguagem moderna dos quadrinhos com o italiano radicado no país, Angelo Agostini.

         O Brasil se tornou um dos pioneiros na criação da linguagem moderna dos quadrinhos com o italiano radicado no país, Angelo Agostini. Esse anarquista de formação começou a publicar quadrinizações de fatos jornalísticos em Diabo Coxo (1864) e O Cabrião (1866) – revistas paulistas. Depois, em 1869, esse autor entrou para a história criando o que seria a primeira novela gráfica em capítulos do mundo, na revista semanal Vida Fluminense. Tratava-se de “As aventuras de Nhô Quim”. Tem sequências lindas, que chegam a lembrar um desenho animado. Em capítulos semanais, mostravam a viagem do personagem-título de Minas Gerais até a corte no Rio de Janeiro. A importância desse feito hoje é eternizada com a criação do Dia do Quadrinho Brasileiro, 30 de janeiro, incluído oficialmente no calendário do país. Neste data, em 1869, foi publicado o primeiro capítulo da história. Depois disso vieram vários artistas invadindo os jornais e revistas.
    No Brasil foi criada a revista Tico-Tico, que durou cerca de 57 anos (1905 a 1962) e nos trouxe os quadrinhos do excelente J. Carlos e de Luiz Sá, entre outros. Foi a primeira revista que trazia, além dos quadrinhos, várias atividades para as crianças como joguinhos e “recorte e monte”. Já era uma linguagem para utilização dentro das escolas. Essa dinâmica recebeu elogios até de Rui Barbosa, leitor da revista.
     Nos EUA, em 1895, era criado o personagem “Yellow Kid”, na verdade uma charge de um garoto de bairro periférico de Nova York, que fazia crítica social. O feito desse personagem, criado por Richard F. Outcault para o Sunday New York Journal, foi a inclusão dos textos para dentro dos quadrinhos. Até então, os textos vinham separados, na parte de baixo dos quadrinhos. As falas do Yellow Kid estavam na bata que ele vestia. Anos mais tarde, essa charge se transformaria em quadrinhos. Alguns historiadores americanos logo aclamaram que aí estaria o nascimento das histórias em quadrinhos. Isso por ser a primeira vez que o texto entrou dentro dos quadrinhos. É o mesmo que dizer que o cinema mudo não é cinema. Sabemos bem que os americanos reivindicam para si muitas coisas como, por exemplo, a invenção do avião. Não seria diferente com as ditas HQs.
     Nas décadas de 20, 30 e 40 do século passado, os quadrinhos viraram febre nos EUA e no  mundo com a criação de suplementos infantis dos jornais e revistas. Centenas de novos heróis e personagens de humor surgiram. Já havia uma produção de desenhos animados, para onde alguns desses heróis migraram, demonstrando que vieram para ficar.
   Em 1929, em plena crise na Bolsa de Wall Stret, nos EUA, surgiam os primeiros personagens de aventura. Buck Rogers e Tarzan iniciariam a era de ouro das HQs americanas e invadiriam o mundo. Eram publicados nos jornais e ajudaram no crescimento de leitores, de tal forma que a imprensa começou a ter seus suplementos de quadrinhos. Depois surgiram O Príncipe Valente, Flash Gordon, Agente X-9, Mandrake, Super-Homem, Fantasma, Batman e toda uma saga de superheróis que chegaram até os dias de hoje.
    No Brasil, em 1934, Adolfo Aizen, da Editora Ebal, traz dos EUA esses personagens para serem publicados no Brasil. Surge, então, o “Suplemento Juvenil”, que faria o mesmo sucesso dos suplementos americanos. O jornalista Roberto Marinho criaria, logo em seguida, “O Globo Juvenil”, para não ficar para trás nessa nova onda. Eram publicados em cores. Foram anos de grande disputa entre as editoras, o que ajudou a esquentar mais ainda a febre de leitura que contaminava os jovens de então. As tiragens eram grandes e também alavancaram a descoberta de novos autores brasileiros. A criação da Editora Abril em 1950 nos traria os primeiros gibis da Disney pelas mãos de Vitor Civita. Todo o conglomerado em que se transformou a pequena editora foi resultado do primeiro sucesso: o “Pato Donald”. Vitor Civita editava
suas revistas e, para distribuí-las nas bancas de jornal, utilizava seu velho carro.

Nos anos 60, surgiam os personagens de Mauricio
de Sousa (Turma da Mônica) e Ziraldo (Pererê), entre
outros.

       Podemos ver por aí a força dos quadrinhos para formar leitores, que depois migraram também para outras revistas e livros. Mas a área de HQs infantis teria outras boas consequências desse sucesso. Nos anos 60, surgiam os personagens de Mauricio de Sousa (Turma da Mônica) e Ziraldo (Pererê), entre outros. Não é preciso dizer como esses personagens ganharam o gosto popular. Ziraldo ainda criaria o Menino Maluquinho, em 1980, que já vendeu mais de 5 milhões de livros nas escolas e entrou para o cinema e para a TV com o mesmo impacto. Mauricio de Sousa já vendeu mais de um bilhão de revistas da Turma da Mônica e publica em cerca de 30 países a saga dos personagens brasileiros. Os dois artistas são ícones para os professores, que costumam utilizar seus gibis e livros para ajudar na alfabetização das crianças nas salas de aula.
   São tantos os autores de quadrinhos brasileiros que seriam necessárias várias páginas para descrever suas criações. Podemos falar de um Jayme Cortez, desenhista de estilo próprio, e que comandou a era de ouro da HQ nacional nos anos 50 com a força dos quadrinhos de terror e aventura. A nova geração com Angelí, Laerte e Glauco, com seus personagens de humor. Os artistas que produzem até para o mercado estrangeiro, principalmente americano, como Ross, Ivan Reis, os gemeos Gabriel Bá e Fabio Moon. Enfim, temos os melhores do mundo.
   Portanto, a origem da linguagem dos quadrinhos se confunde com a história da humanidade. É tão atual quanto os rabiscos feitos por aquele homem das cavernas. É nosso momento de criação. Como pequenos deuses dando vida ao nosso mundo. Com um papel e lápis podemos recriar o universo, assim como Da Vinci e os grandes inventores. Assim como nas histórias de Flash Gordon prevendo as naves espaciais e viagens interplanetárias nos anos 30, que foram acontecer na década de 60. Assim como os heróis que vieram mostrar que alguns milagres são possíveis. Assim  como um simples desenho de uma criança, que não desenha mais nas cavernas, mas sim nas paredes de casa ou no computador.
    O quadrinho está em nossa vida não apenas para dar margem à nossa diversão, mas para deixar fluir o que mais temos de humano – a ideia. E quem tem a ideia tem o poder no mundo.

¹Jornalista e cartunista, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil – ACB e fundador do Troféu HQMIX das Artes Gráficas.

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