Embora muitos não percebam, mas museu é um lugar de aprendizado sim; mesmo os não científicos no qual o visitante apenas observa as obras. Ele é uma chance da pessoa aprender sem pensar nos métodos escolares, aprender gostando do que vê, fazendo relações ampliando conhecimentos mesmo que sejam estéticos...
No texto abaixo profissionais discutem e refletem sobre a importância dos atuantes em museus investirem na educação não formal...
Museus: sem educação não há acesso
Enviado por Mônica Herculano • maio 22, 2015
(...) Na semana passada, um encontro em São Paulo (SP) reuniu profissionais de museus e galerias para debater o resultado da pesquisa Cultura em SP – Hábitos Culturais dos Paulistas,
idealizada pela J.Leiva Cultura & Esporte e realizada pelo
Datafolha. A partir dos dados apresentados, foram levantadas algumas
questões referentes à atuação desses espaços culturais, entre elas: a
relação entre formação/educação e hábitos culturais; a relação renda x
escolaridade no acesso (a escolaridade é mais relevante do que a renda,
segundo mostra a pesquisa); o problema da acessibilidade e da mobilidade
(especialmente nas grandes cidades); a redução do acesso conforme
aumenta a faixa etária; e a importância do trabalho dos educativos e da
mediação cultural.
“Conseguimos demarcar as décadas 1980/90, aqui no Brasil, como o
início de práticas de educação em museus que procuram pensar sobre as
direções dadas às suas ações. Ou seja, os programas educativos começam a
se perguntar sobre a quem interessam as mediações levadas a cabo nessas
instituições. Faz-se mediação para a manutenção das instituições?
Faz-se mediação para o público visitante? Para quem?”, explica Rejane
Coutinho, professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual de
São Paulo (Unesp).
Esses programas chegam ao século XXI com uma grande questão a
resolver: trabalha-se pela reprodução do sistema, por sua manutenção, ou
atualiza-se o debate e pensa-se nos cidadãos como usuários críticos e
ativos diante de seus patrimônios e suas culturas?
A professora explica que a direção da manutenção vê usuários
passivos, apenas receptores dos discursos que continuam a legitimar o
poder. Já a visão crítica entende que o papel das instituições é
contribuir com a emancipação dos sujeitos, atualizando o conceito de
cultura, entendendo que as culturas são espaços de produção de sentidos
para aqueles que os produzem e os consomem, e entendendo também que as
pessoas fazem parte de comunidades de aprendizagem, comunidades de
interpretações de mundos. “Algumas instituições estão preocupadas e
pensando sobre estes problemas, mas poucas estão realmente investindo em
propostas que levem à emancipação do público”, afirma.
Kátia de Marco, coordenadora acadêmica do MBA em Gestão de Museus da
Universidade Cândido Mendes, parceria com a Associação Brasileira de
Gestão Cultural (ABGC), lembra que, salvo exceções, só os museus mais
profissionalizados em sua gestão e programação, localizados nos centros
urbanos, possuem programas educativos estratégicos e continuados,
apresentando resultados inclusivos e de formação do olhar. Ela acredita,
porém, que a implementação das atuais políticas para os museus
brasileiros, colocadas em ações de órgãos públicos como o Ibram
(Instituto Brasileiro de Museus) e de algumas Secretarias de Cultura na
última década, têm incentivado a orientação e condução para o
desenvolvimento da mediação socioeducativa desses espaços.
“Aprimorar a gestão da sustentabilidade, a qualidade programática, a
acessibilidade universal, as ações educativas e de entretenimento é
fundamental na motivação das frequências, mas se não houver uma política
de ação conjunta entre as diversas instituições da sociedade, no
estímulo para a criação do hábito de se visitar museus, pouco se
conseguirá além de ampliar o
público que já pertence ao perfil
estabelecido de usuários”, diz Kátia.
Os museus brasileiros não têm trabalhado bem seus setores educativos,
segundo Edna Onodera, coordenadora executiva do Arteducação Produções,
que desenvolve programas de mediação. Isso acontece, segundo ela, porque
esses espaços consideram e entendem o educativo como um papagaio. “É
exótico, vive bastante, vive repetindo frases, e quando cansa ou fica
caro manter, dispensamos. Trata-se o educativo como acessório, não como
parte importante e essencial.”
Rejane completa que a profissionalização dos educadores de museus tem
sido difícil. Geralmente contrata-se empresas para trabalhos
temporários, enquanto duram as exposições e enquanto há capital
investido. “Bons educadores acabam desistindo desse trabalho. Os poucos
heróis que conseguem abrir suas empresas lutam para conseguir projetos,
aceitando todo tipo de condição imposta pelas instituições. As empresas
acabam recrutando estagiários, jovens com pouca formação ou em formação
que, em geral, não são orientados e acompanhados durante os trabalhos”,
afirma.
Mediação - Daina Leyton, coordenadora da área de
Educativo e Acessibilidade do Museu de Arte Moderna de São Paulo
(MAM-SP), conta que lá se pensa um tema norteador que permeia o roteiro
de cada visita, de acordo com a faixa etária e os conhecimentos prévios
do grupo, buscando promover diálogos que articulam os eixos curatoriais,
os conceitos da arte e os acontecimentos do mundo. “Considerando que a
arte contemporânea diz respeito a diversas instâncias da vida, a
realidade e o cotidiano de cada participante são extremamente
significativos para o processo de mediação”, diz.
Para ela, o aspecto inovador nas relações sociais que podem ser
estabelecidas entre um museu ou espaço cultural e a comunidade é a
elaboração de estratégias de mediação que permitam romper a distância
espectador-obra, espectador-artista, espectador-museu ou espaço
cultural, desmistificando papéis e criando um tipo de vínculo a partir
do qual ocorre a apropriação dos conhecimentos gerados na relação com a
arte. “É um processo que exige uma comunicação e um trabalho contínuo.
Precisamos sempre estabelecer um diálogo efetivo com os frequentadores.”
Segundo Edna, os educativos dos museus têm desenvolvido materiais
diversos – como jogos, imagens impressas, leituras poéticas – como forma
de apoio para os contextos e as estratégias de entender a arte, a
história, as relações e os sentidos para enriquecer a experiência da
visita. Agora, talvez seja necessário pensar junto, voltar a provocar a
acessibilidade física e experiencial, na formação das equipes da
manutenção, segurança, limpeza, expografia, curadoria. “Não há áreas
para sentar, descansar, pausar. Não se pode olhar sentado. Então, pensar
ações educativas não parte de um setor, mas da gestão como um todo”,
defende.
Ela ainda indica que uma das falhas neste sistema pode ser não
reservar espaço para diálogo e participação. “Simples, não? Parte
fundamental para transformar é comunicação. Entender intenções, ações,
planejamento, orçamentos, participar das decisões”, indica. Nesse
sentido, uma estratégia que vem se afirmando eficaz em termos de
renovação e captação de novos públicos, conta Kátia de Marco, é o
engajamento interativo da instituição em causas ou temas de interesse
das comunidades, com abertura para a participação ativa delas na
formulação dos conteúdos oferecidos na programação.
“Penso que um dos grandes desafios para ampliar as audiências dos
museus e de centros culturais de uma maneira geral seja trabalhar a
questão com enfoque prioritário e integrado à diversas instâncias da
sociedade – escolas/universidades, veículos de comunicação, empresas,
ONGs, órgãos governamentais e a própria família -, os chamados
‘não-públicos’, ou seja, os segmentos populacionais que não frequentam
esses espaços”, afirma Kátia.
Isso inclui pensar em mobilidade. “É vital que haja a cooperação
integrada com os setores públicos e privados de transporte e de
segurança pública urbana, mediante parcerias efetivas e permanentes. A
integração de ingressos x bilhetes de passagens x ticket refeição é
fundamental para estimular a visitação de camadas mais extensas da
população, principalmente das famílias, que muitas vezes se sentem
impedidas de visitarem os museus pelo alto custo do acesso.”
Para Rejane, as instituições têm se preocupado com o acesso, porém a
questão é complexa e, para afirmar em quais direções as ações estão
apontando, precisamos de mais pesquisas. “A grosso modo, temos mais
público visitando exposições, mas precisamos nos perguntar o que tem
levado esse público a elas”, afirma. Ela acredita que a mídia tem tido
um papel talvez mais relevante do que os programas educativos. “Outro
dia, visitando a Pinacoteca num domingo, parei para conversar com uma
senhora que trabalha como segurança das salas e ela disse que estava
sentindo falta da multidão que afluiu a exposição anterior, de Ron Muek,
pois aquela exposição que lá estava dava sono a ela, não tinha
público.”
Será que o grande público que foi à exposição de Ron Muek volta para
visitar o acervo da Pinacoteca, ou para buscar espontaneamente outra
exposição? A professora tem dúvidas. “Educação é fundamental para
estimular o desejo por arte. Gostar ou não desta ou daquela produção
depende de entendimento, de instrumental para situar e para
contextualizar as produções, para aproximar da vida. O que quero dizer é
que a mediação da arte, da cultura, é imprescindível para a formação de
público”, completa.
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